Presas até a gaiola ficar cheia: Orange Is The New Black

Que Orange Is The New Black é uma das séries de maior sucesso da Netflix e que ela promove os mais variados debates sobre questões que acontecem na nossa sociedade, não é novidade, mas como as coisas mais óbvias muitas vezes são as em que menos prestamos atenção, muita gente acaba esquecendo que, antes de tudo, a série desconstrói, antes de tudo, a imagem que a gente tem sobre presidiárias.

Deixa eu me explicar: todo mundo sabe que existem mulheres presas e que as condições dela não são exatamente um parque de diversões, mas realmente, quanto a gente sabe sobre a vida em uma prisão? Quanto a gente para pra pensar nessas mulheres que estão encarceradas, não como mulheres que cometeram crimes e que merecem estar presas, mas como humanas, que além dos seus erros, têm uma personalidade própria, uma família e enfrentam problemas tanto fora quanto dentro do lugar em que estão?

Você provavelmente não se preocupa com o que possa acontecer com uma assaltante de bancos, certo? Ou com uma pessoa que matou outra que mal conhecia; ou com alguém que faz parte da máfia ou de um cartel de drogas? Mas na série você se preocupa, sofre e torce pela Rosa, pela Doggett (Pennsatucky); pela Red; pela Alex e por inúmeras outras personagem que estão encarceradas em Litchfield.

Mas por que é mais fácil pensar sobre o que acontece com essas personagens fictícias do que com mulheres de carne e osso, da vida real? Porque é exatamente pra isso que a série foi construída, para fazer com que conheçamos essas mulheres, com que nos identifiquemos com elas. Dessa forma, as mulheres deixam de ser pessoas sem rosto em um lugar distante e que cometeram crimes horríveis e passam a ser pessoas, com suas qualidades e defeito; pessoas que possuem uma personalidade que pode lembrar a sua, a da sua melhor amiga, da sua mãe ou da sua irmã. A série faz com que a gente passe a ter aquela coisa, que não costuma aparecer em muitas pessoas que conhecemos na vida real: a empatia.

É só quando a gente consegue se colocar no lugar do outro e sentir o que ele está sentindo que conseguimos sentir empatia por aquela pessoa, e com OITNB, isso se torna ainda mais fácil por causa do recurso dos flashbacks, que nos mostram um pouco sobre a vida das personagens antes delas irem parar na prisão. Quem não conseguiu sentir a dor da Nicky ao ser ignorada pela mãe quando ela era criança? Ou não se emocionou ao ver que a Carrie (Big Boo) Black não era aceita como ela era nem pela própria família? Ou se viu um pouquinho (nem que seja aquele fundinho que você sufoca) na Morello, que vivia em uma realidade alternativa em que ela conseguia viver o seu sonho de relacionamento perfeito, o que fez com que ela perseguisse o cara que ela acreditava ser seu noivo?

Ao mesmo tempo em que a série faz com que nos coloquemos no lugar das presas, ela mostra, por meio da relação dos guardas com elas, o processo de animalização que elas sofrem dentro da prisão. Lá elas não são tratadas como pessoas, não são vistas como iguais, o que é mostrado em diversos momentos no decorrer da série.

Logo na primeira temporada somos apresentadas ao personagem George (Pornstache) Mendez, que se aproveitava da situação delicada daquelas mulheres, ao lhes dar drogas em troca de favores sexuais. Ele, ao se ver em uma situação delicada, como a da morte de Tricia, que acabou tendo uma overdose após ele ter forçado ela a vender heroína para pagar suas dívidas, forjou um suicídio para se livrar dela e não mostrou nenhuma forma de arrependimento após isso.

As temporadas seguintes também mostram situações em que os guardas e a administração da penitenciária tratam as mulheres que lá estão como se não fossem ao menos seres humanos. A cota de ocorrências que os guardas recebem, que fez com que as presas fossem punidas sem motivos durante a segunda temporada é uma delas (o que fez com que a Fischer, uma das guardas que se colocou contra essa medida, fosse demitida).

Na terceira temporada duas situações podem ser destacadas: o estupro sofrido pela Doggett por um dos guardas e o fato de a Sophia ter sido mandada para a solitária mesmo sendo a vítima da situação. Sim, outros fatores estavam envolvidos nessas tramas, como a misoginia e a transfobia, mas em ambos os casos podemos ver as pessoas que trabalham em Litchfield tratarem duas presas de forma sub-humana.

Apesar desses exemplos, nenhuma temporada deixou isso tão claro como na quarta. Se você ainda não viu, tá perdendo tempo, vai ver agora não leia o que está a seguir pois o texto trará spoilers.

A temporada já começa com a chegada de novas detentas, sendo que não há ampliação nenhuma do espaço físico. As detentas passam a ficar todas aglomeradas em seus dormitórios, na cantina, na sala de recreação e em todos os lugares da penitenciária. Além disso, essa chegada faz com que muitas dessas mulheres fiquem sem seus empregos, dificultando o acesso delas de itens básicos na lojinha.

Ainda pior do que isso é usar o pretexto de oferecer educação para essas mulheres, para na verdade usá-las como mão-de-obra para construir um novo dormitório (não pra melhorar a qualidade de vida delas, mas para poder abrigar ainda mais detentas) sem precisar pagá-las por isso.

Quando os guardas começam a revistar as latinas e continuam a fazer isso mesmo depois de o esquema das calcinhas ter terminado, mostra como as presas não passam de objetos. Esse plot da série que mistura racismo, machismo, assédio e objetificação mostra como, para os guardas, elas não são, em nenhum aspecto, vistas como pessoas, como um igual, mas sempre como o alter, que necessariamente é inferior.

Um dos personagens que surgiu nessa última temporada e que consegue ser ainda mais odioso que o Pornstache (e a gente achando que isso não era possível) foi o guarda Humphrey (Humps). Ele é a personificação de um tipo de sadismo que trata as presidiárias como se estivessem lá para entretenimento dele. Entre as atitudes asquerosas provocadas por ele estão o dia em que ele ameaçou a Maritza de morte, obrigando-a a engolir um filhote de rato vivo; e quando ele estimulou uma espécie de briga de galo entre a Kukudio e a Suzanne (Crazy Eyes) Warren.

A temporada atingiu seu climax (e o momento mais triste de toda a série) quando os guardas começaram a reprimir um protesto pacífico das detentas e a Poussey acabou sendo morta enquanto tentava acalmar Suzanne. A forma com que essa situação foi conduzida pelos responsáveis por Litchfield foi de uma desumanidade absurda, com o corpo dela sendo deixado no refeitório por horas a fio e a família dela não ter sido avisada imediatamente do ocorrido.

A série faz questão de ressaltar que na visão dos guardas e da sociedade as presas não são seres humanos e não merecem a menor consideração. Em diversos momentos durante a série, os próprios personagens falam isso, como no episódio 12 da primeira temporada em que Caputo aconselha a Fischer a chamar todas as presas de “detentas” e não pelo nome porque “isso faz elas lembrarem que não são gente”, ou quando o Piscatella diz para Red, quando está impedindo-a de dormir, que “prisão não se baseia em humanidade” e ironizar sobre o assunto.

As próprias detentas ressaltam isso, como aconteceu com a Boo, quando ela disse “Somos mentirosas e degeneradas, merecemos tudo que nos acontece”, numa tentativa de explicar para Doggett o que aconteceria se ela denunciasse Charlie (Donuts) Coates. Aleida, por sua vez, logo no episódio 1 da quarta temporada diz “não somos mais pessoas, mas itens a granel” sobre a situação de superlotação do presídio.

Ao criar essas situações ao mesmo tempo em que faz com que os telespectadores criem empatia com as detentas, Orange Is The New Black propõe com que pensemos nas mulheres reais que estão confinadas em cadeias pelo mundo todo e passam por situações, se não iguais, similares em maior ou menos escala.

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