Um aparelho para chamar de seu

em parceria com Odhara Caroline Rodrigues

“Os meninos que apanharam nem aparecem mais aqui, moça”. Um homem entre 30 e 40 anos, segurando um cartaz com modelos de camisetas “de marca”, nos disse enquanto abria a sua carteira. De lá, ele tirou seis varetinhas, cada uma com 100 borrachinhas. “Vocês podem tirar foto, sim,  mas não aqui. Vocês podem ir ao banheiro do McDonalds aqui perto”.

A disponibilidade deste rapaz não foi a mesma que a dos primeiros vendedores que encontramos. Os sorrisos se fecharam assim que informamos que éramos jornalistas e estávamos fazendo uma matéria sobre a mania dos aparelhos ortodônticos como acessório. “A PM leva a gente se vir que a gente tá vendendo. Semana passada a gente gastou 750 reais com fiança, mas agora nem isso eles estão aceitando mais. Tem que ficar três dias na cadeia”, disse um dos três homens que nos fitavam com a cara amarrada.

O vendedor que encontramos depois disso nos explicou o porquê da hostilidade de seus colegas. O medo que eles tinham não era apenas da PM. Os vendedores que apareceram nas matérias televisivas sobre um dos mais característicos acessórios do funk ostentação, febre entre os adolescentes brasileiros e trilha sonora dos famigerados rolezinhos, sofreram represálias. Por meio deles, a polícia conseguiu chegar nos fornecedores dos braquetes, ferrinhos e borrachinhas, que, por sua vez, acertaram as contas com os vendedores que não resistiram à oportunidade de ter seus quinze minutinhos de fama. Não foi à toa que eles deixaram de frequentar as calçadas da famosa rua 25 de março.

Nas bocas de cantores como o MC Guime, MC Rodolfinho e MC Lon, estão o que foi o terror da adolescência de muita gente: brequetes e borrachinhas coloridas. Enquanto os que receberam do dentista a triste notícia de que deveriam usar aparelhos se lembram das dores, às vezes acompanhadas de febre e regadas a muita sopa para não sobrecarregar os sofridos dentes, os seguidores da mais nova moda passam cola instântanea na arcada tentária apenas pela estética. Aqui, não pense na estética de um sorriso alinhado, que era a promessa a longo prazo do seu dentista, e sim no prazer de ter um sorriso adornado por metal.

Ainda que o simpático vendedor tenha nos deixado tirar fotos de sua mercadoria para esta matéria, ele tinha pouca coisa à disposição: apenas seis varetinhas com borrachas de cores diferentes. Se quiséssemos ver uma variedade maior de material, poderíamos ir em determinada galeria, localizada em uma travessa da 25. “Mas não peçam pra tirar fotos e não contem que vocês são jornalistas”, ele nos recomendou, solícito. Nos armamos com uma boa desculpa (a de que um primo do interior queria um aparelho pra chamar de seu) e seguimos em frente.

Graças àquele vendedor, nós já sabíamos que o preço das borrachinhas era tabelado: o piso é de 10 reais. As borrachinhas eram adquiridas em pacotes chamados de “milheiros”. Cada um deles continha 10 varetinhas, cada qual de uma cor, com 100 borrachinhas. Cada varetinha custava, no fornecedor, um real — lucro mínimo de nove reais por cada para o seu vendedor.

Ao encontrar os rapazes e darmos a eles a desculpa do primo do interior, o grupo se mostrou bastante solícito. Eles nos mostraram diversos tipos de arame (normais, trançados, azuis, roxos, vermelhos) e borrachinhas — além das coloridas comuns, um outro tipo nos chamou a atenção; ela parecia uma pequena flor. “Parece mesmo, moça. Mas quando você põe ela no braquete, vira uma estrela”, nos explicou um dos rapazes. Esse era o tipo de coisa que decididamente não havia na nossa adolescência. “Os braquetes e as borrachinhas trançadas estão em falta”, informou outro vendedor quando os questionamos a respeito das peças que tinham em estoque.

Mas como eles colocavam esses aparelhos? Era verdade o esquema de cola instântanea ou para unhas postiças que nos falaram? “Bom, eu coloquei o meu em um dentista. Paguei 600 reais”, contou o rapaz que parecia líder do grupo. “Mas a manutenção mesmo faço sozinho, em casa, com um trocador. Se você não tiver um, dá pra fazer com fio dental também”, aconselhou. Ele explicou o que fazer para que o dentista aceite colocar o aparelho, mesmo sem necessidade real. “É só você dizer que vai no consultório dele todo mês fazer a manutenção e nunca mais aparecer”, disse, indignado com o preço cobrado pelos profissionais especializados para fazer o serviço: “os dentistas cobram 100 reais só para trocar a borrachinha”.

De acordo com a cirurgiã dentista e ortodontista Nilza Domingos de Lima, não apenas o uso do aparelho sem necessidade, mas também o de material errado e a manutenção de forma imprópria são muito prejudiciais. “A ortodontia tem como objetivo fazer com que os dentes fiquem na melhor posição possível para a mastigação. Quando o aparelho é usado dessa maneira, ele acaba prejudicando a mordida”.

Porém, essa não é a pior consequência do mal uso dos aparelhos, e se engana quem pensa que colocá-lo em um dentista, deixando apenas a manutenção para fazer em casa, é mais seguro. “Ela [a manutenção] é feita por meio da troca dos fios. Se feita de maneira errada, acarreta em uma movimentação indevida da dentição, o que, por sua vez, pode levar à perda óssea e consequentemente à perda dos dentes”.

Enquanto isso, no mundo pop os aparelhos ganham um upgrade. Rebatizados de grillz, eles são feitos com materiais nobres. No VMA de 2013, a cantora Katy Perry apareceu com um feito de diamantes: as pedras formavam a palavrar “Roar”, nome do single que ela promovia naquele momento. Quem trouxe a moda para o mundo pop foi (quem mais poderia ser?) Miley Cyrus. Para a edição de setembro de 2013 da Harper’s Bazaar, ela contou que sempre carregava três modelos de grillz dentro da bolsa. Rihanna, Beyoncé, Madonna e até mesmo a musa indie Lana Del Rey seguiram a deixa da nova garota problema da América.

O uso dos grillz data da década de 1980, fruto da cultura do rap americana. Se hoje eles são o mais novo acessório fashion, antes eles eram usados para ostentar a riqueza do rappers — que tinham tanto dinheiro que dedos, mãos e pescoço não eram suficientes para suas jóias, que, acabarm parando dentro das bocas deles. Mas não se engane pensando que a apropriação dos grillz pelas divas do pop diminuiu o preço dos acessórios. Um grill que cubra a arcada dentária superior custa, no mínimo, 700 dólares. O cantor de hip-hop Paul Wall, que além de usar os grillz também os fabrica, contou para o jornal NY Daily News uma das peças mais cara que já fez: foi para o rapper T.I., que pagou 30 mil dólares para enfeitar os  seus dentinhos.

A confecção dessas peças normalmente começa num consultório de dentista. O molde do grill é feito de silicone e depois uma estrutura de metal (geralmente ouro ou prata), que pode também ser cravejada de pedras preciosas, é encaixada nesse molde, que se torna uma espécie de aparelho móvel. Um pouco mais rico, claro.

A recomendação dos dentistas quanto aos grillz é que eles sejam usados por, no máximo, quatro horas. O seu uso excessivo pode causar problemas que, ainda que não tão graves quanto o deslocamento dos dentes, também são perigosos, como o acúmulo de bactérias, que pode levar a uma inflamação da gengiva — risco que quem usa os aparelhos fixos do lado de cá da linha do Equador também está sujeito.

Ainda que os preços sejam tão divergentes, tanto grillz de pedras preciosas quanto os aparelhos vendidos na 25 de março tiveram origem na cultura da ostenção e perseguem o mesmo objetivo. “É estético, né?”, nos disse, com um dar de ombros, o vendedor que pagou 600 reais para conquistar o sonho do sorriso metálico.

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